COMO DESENVOLVER UMA CULTURA DE COMPLIANCE PARA O SEU NEGÓCIO - Fernanda Santiago - Advogada

março 12, 2020

Todo empreendedor idealiza uma cultura para a sua empresa, ainda que não perceba que está a desenvolvendo. 
A interpretação da cultura organizacional determina a ordem social (o que é considerado certo, errado ou aceitável naquele ambiente) por meio de uma programação coletiva. 
Talvez o ponto mais importante para a implantação de uma cultura de compliance seja o de estimular os comportamentos éticos na conduta diária. Isso quer dizer que, por mais necessário que seja estarem em conformidade com as leis, os valores éticos devem ser vivenciados nas pequenas ações do dia a dia. 
Essa cultura vem cada vez sendo mais observada e por isso é preciso que todo empreendedor comece a refletir e a implementar alguns caminhos que passarei a abordar com vocês.   
1) REGRAS CLARAS E POR ESCRITO: Inicialmente, é preciso deixar registrado que as regras e a ética que fazem parte da sua empresa precisam estar claras e evidentes para todos  funcionários, clientes e fornecedores. Só assim você poderá se livrar das armadilhas do oportunismo empresarial. 
Facilmente conseguimos visualizar em um jogo que quando as regras não são claras, cada um decide o caminho a seguir e obviamente que aqueles com a habilidade de liderança mais aflorada acabam por impor suas próprias regras e influenciando os demais. 
Numa empresa, não acontece diferente. Se você não tiver suas regras, outros profissionais, motivados pelo oportunismo, determinarão os princípios da cultura do seu negócio por você e isso pode se tornar um grande problema organizacional.
Vale ressaltar que o oportunismo aqui mencionado não reflete uma postura negativa, mas é uma postura natural e mesmo os funcionários mais alinhados com o seu negócio, que explicitamente se comprometem com os interesses da empresa, pautam suas ações em busca dos próprios interesses.
Por outro lado, quando você assume que existe a possibilidade do oportunismo, você também assume que pode controlá-lo. É a regra clássica da gestão: o que não pode ser medido não pode ser controlado.
Assim, explicar a todos onde termina os interesses da empresa e onde começam os interesses pessoais é fundamental para uma cultura de compliance bem definida. 
2) OBSERVÂNCIA DO DIA A DIA ORGANIZACIONAL: Para criar uma cultura ética de fato e contribuir de forma positiva para o desenvolvimento do seu negócio, é necessário observar o dia a dia da empresa, aquele efetivamente vivenciado pelos funcionários e aquele que se busca construir. Construir este ambiente depende do uso de ferramentas de diagnóstico e controle efetivas.
A prevenção de situações de privilégios de uns e detrimento de outros é ponto importantíssimo para consolidar a confiança dos funcionários na empresa.
3) O “JEITINHO BRASILEIRO”:Antes mesmo de considerar a cultura organizacional, precisamos considerar a cultura nacional em que a empresa está inserida e em se tratando de Brasil, o primeiro contexto que vem à nossa mente é do famoso “jeitinho brasileiro”, que se refere à tentativa de proveito em detrimento de outro.
Geralmente associamos o “jeitinho” com atos de corrupção ou algo gênero, mas ele está inerente em outras ações também, como por exemplo, quando um trabalhador tenta diminuir sua carga de trabalho gastando horas do seu tempo para navegar em redes sociais, sobrecarregando o seu colega de trabalho e está sendo recompensado normalmente com seu salário integral. 
Este comportamento pode prejudicar o desempenho de quem está sendo justo com sua carga laboral. O trabalhador prejudicado tenderá a diminuir sua carga, na tentativa de igualar com o outro. Esse ciclo pode gerar um afrouxamento sistêmico aos objetivos de produção da organização.
4) MÉTODOS DE MENSURAÇÃO E AVALIAÇÃO: Obviamente nenhum empresário quer investir seu tempo (escasso) no controle de horas de trabalho de seus colaboradores, mesmo porque quer acreditar que o trabalhador será honesto com seu tempo dedicado para a empresa versus o tempo dedicado aos seus assuntos pessoais. Caso queira controlar esse tempo, tende a gerar um clima de desconfiança e desmotivação.
Uma saída para este tipo de situação é definir metas que deixam a cargo do trabalhador a gestão do seu tempo, mas sem permitir que surja outro tipo de “oportunismo” que é quando alguns gerentes operam o sistema para tirar maior proveito dos trabalhadores, sem viabilizar as condições para alcançar essas metas, proferindo a famosa frase “te vira!”, ou ainda “não quero saber como você vai atingir a meta, apenas atinja!”.
Esse tipo de oportunismo pode impulsionar o trabalhador a agir de forma antiética na empresa, pois está sob pressão da meta estabelecida e isso é a abertura da porta para o assédio entrar e que em hipótese alguma pode ser admitido.
5) APRENDA A DOMINAR O OPORTUNISMO: Seja controlando as horasou mesmo deixando a cargo do colaborador administrar o seu tempo, em ambos os casos há riscos de conflito e oportunidades do desenvolvimento de dilemas éticos.
Para entender se a empresa está sob ataque do oportunismo, precisamos buscar compreender a influência do ambiente no indivíduo.
Ao analisar o oportunismo, é importante compreender o comportamento dos membros da organização (funcionários, clientes, sócios e fornecedores), tomando-a por uma visão de ordem complexa, inserida em um contexto. O conjunto de todas essas características é o que compõe a cultura organizacional.
Para desenvolver essa cultura organizacional pautada pela ética, é preciso considerar os ativadores de comportamentos que levam à conformidade e, também, ao oportunismo, propondo ações para melhoria e reforço aos valores da organização.
Somente com a difusão de uma cultura de compliance é possível manter um padrão ético em toda a organização, independentemente da fiscalização exaustiva. Muito além de haver uma vigilância constante, o que ocorre é a conscientização de todos sobre a necessidade de se manter comportamentos éticos. Assim, cada um é responsável pelos seus atos e por fiscalizar a conduta dos outros.

Fernanda Santiago | Advogada
Especialista e Consultora em Direito do Trabalho Empresarial | Gestora Jurídica
Colunista | Palestrante no portal @conexõesfemininas
Instagram: @fernandasantiagoadv