Por Kívia Tenório • Psicanalista e especialista em Neurociência do Comportamento Humano
A ansiedade faz parte da experiência humana. Ela aparece antes de uma entrevista importante, diante de uma decisão difícil, durante uma mudança de vida ou quando existe alguma ameaça no horizonte. Em certa medida, esse estado de alerta é necessário, pois prepara o organismo, direciona a atenção e ajuda a antecipar situações que exigem uma resposta.
O problema começa quando esse alerta deixa de ser pontual e passa a acompanhar a pessoa por boa parte do tempo.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, os transtornos de ansiedade são os transtornos mentais mais comuns no mundo. Em atualização publicada em setembro de 2026, a OMS informa que cerca de 470 milhões de pessoas viviam com algum transtorno de ansiedade em 2023, o equivalente a aproximadamente 5,8% da população mundial. A organização também aponta que as mulheres são mais afetadas do que os homens.
No Brasil, um estudo internacional publicado em 2026 ajuda a dimensionar a questão. A pesquisa avaliou 7.997 adultos em oito países, entre os participantes brasileiros 12,9% atingiram o critério usado no estudo para o rastreio de ansiedade generalizada, o maior percentual entre os países analisados. A avaliação utilizou o GAD-7, um instrumento de rastreio de sintomas, e não corresponde, por si só, a um diagnóstico clínico.
A distinção entre ansiedade e transtorno é importante. Sentir ansiedade não significa necessariamente estar doente. O organismo possui mecanismos de antecipação e proteção que foram fundamentais ao longo da evolução humana. Diante de uma possibilidade de perigo, o corpo pode acelerar os batimentos cardíacos, aumentar a vigilância, alterar a respiração e concentrar recursos naquilo que parece urgente.
A amígdala participa dos circuitos envolvidos no processamento de ameaças e nas respostas defensivas, mas atua em conjunto com outras regiões cerebrais. Estudos recentes mostram que a ansiedade envolve redes relacionadas à antecipação de ameaças, ao controle cognitivo, à recompensa e ao processamento social. Por isso, seria inadequado reduzi-la à atividade de uma única estrutura cerebral.
Os mecanismos de proteção continuam conosco. O ambiente, porém, mudou profundamente.
Da angústia de Freud ao cérebro que antecipa
Muito antes das atuais tecnologias de investigação do cérebro, Sigmund Freud já se dedicava à angústia e às formas pelas quais o ser humano reage à percepção de perigo.
Seu pensamento sobre o tema mudou ao longo do tempo. Em Inibição, sintoma e angústia, de 1926, Freud desenvolveu a ideia da angústia como um sinal diante de uma situação de perigo, capaz de mobilizar respostas defensivas antes mesmo que algo aconteça.
Décadas depois, novas possibilidades de investigação permitiram observar processos que Freud conhecia principalmente por meio da experiência clínica.
Mark Solms, neuropsicólogo e psicanalista ligado ao desenvolvimento da neuropsicanálise, é um dos autores que trabalham nessa aproximação. Seus estudos colocam em diálogo questões formuladas pela psicanálise e conhecimentos produzidos pelas neurociências sobre consciência, afetos, necessidades do organismo e processos inconscientes.
A neurociência não confirmou de forma simples ou direta as formulações de Freud. O que existe é uma aproximação entre campos que, por caminhos diferentes, procuram compreender como cérebro e mente lidam com emoção, perigo, previsão e incerteza.
Pesquisas recentes vêm dando destaque à chamada intolerância à incerteza, isto é, à dificuldade de lidar com situações em que não sabemos exatamente o que acontecerá. Uma revisão de 2025 descreve esse fenômeno como uma dimensão importante na manutenção de diferentes transtornos relacionados à ansiedade.
Uma meta-análise publicada em 2026, que reuniu 115 estudos e mais de 28 mil participantes, encontrou associações consistentes entre intolerância à incerteza, preocupação e diferentes manifestações de ansiedade. A relação foi particularmente forte no transtorno de ansiedade generalizada.
Essa discussão ajuda a compreender um paradoxo da vida contemporânea: nunca tivemos tanta informação disponível e, ainda assim, continuamos convivendo com altos níveis de incerteza.
Quando o perigo não termina
Durante grande parte da história humana, muitas ameaças percebidas tinham alguma delimitação no tempo. A ameaça surgia, o organismo reagia e, em algum momento, a situação terminava.
Hoje, boa parte das nossas preocupações não tem um encerramento tão claro.
O celular pode trazer uma nova demanda profissional à noite. Uma notícia surge segundos depois de outra. Há mensagens esperando resposta, contas, decisões profissionais, cobranças familiares e atualizações constantes sobre o que outras pessoas estão fazendo.
Para muitas mulheres, esse cenário ainda se soma às exigências das diferentes fases da vida. Carreira, estudos, relacionamentos, maternidade, cuidados familiares, organização da casa, expectativas financeiras e projetos pessoais podem coexistir no mesmo período.
O organismo recebe sucessivos sinais de que ainda existe alguma coisa para resolver.
Nesse cenário, conceitos como sobrecarga informacional ganham importância. Quanto maior a quantidade de estímulos que competem pela nossa atenção, maior a necessidade de selecionar, interpretar e decidir o que merece resposta.
A velocidade com que essas informações chegam também modifica nossa relação com o tempo. Cresce a sensação de disponibilidade permanente, como se mensagens, demandas e decisões precisassem de resposta imediata.
A tecnologia oferece inúmeros benefícios: aproxima pessoas, amplia o acesso à informação, permite novas formas de trabalho e cria possibilidades que seriam impensáveis há poucas décadas. A questão é como nosso organismo responde quando essa conexão praticamente nunca termina.
O medo de ficar de fora
Outro conceito que ganhou espaço na literatura é o FOMO, sigla em inglês para fear of missing out.
O termo descreve o medo de perder experiências, informações ou acontecimentos relevantes enquanto outras pessoas parecem participar deles.
É fácil reconhecer esse movimento no cotidiano. Abrimos uma rede social para conferir uma mensagem e, poucos minutos depois, já passamos por notícias, vídeos, opiniões, conquistas profissionais, viagens, conflitos e dezenas de outros estímulos.
A sensação de que sempre existe algo acontecendo pode favorecer o impulso de continuar verificando.
Uma meta-análise publicada em 2024 reuniu 209 estudos, com 252.337 participantes de 28 países, e encontrou associações positivas entre o uso problemático de redes sociais, a ansiedade generalizada, a ansiedade social e o FOMO. Os resultados mostram relações importantes entre esses fenômenos, mas não permitem concluir que o uso das redes sociais, isoladamente, cause transtornos de ansiedade.
Ainda assim, vale observar o ambiente que estamos construindo, no qual a informação não termina, a comparação social está sempre disponível e a sensação de urgência pode nos acompanhar durante todo o dia.
Um cérebro antigo em um ambiente muito recente
Existe um conceito conhecido como descompasso evolutivo, ou evolutionary mismatch.
Ele descreve situações em que características moldadas ao longo da evolução humana passam a operar em ambientes muito diferentes daqueles em que se desenvolveram.
Um artigo publicado em 2026 discute essa perspectiva em relação às tecnologias digitais e à saúde mental. Os autores ressaltam que esses recursos podem intensificar determinados descompassos, mas também ajudar a compensá-los.
O cérebro humano possui neuroplasticidade: aprende, modifica conexões e responde continuamente às experiências. As transformações tecnológicas e sociais, no entanto, podem acontecer em poucos anos.
Em um intervalo muito pequeno da história humana, passamos a carregar no bolso um dispositivo capaz de nos conectar ao trabalho, à família, às notícias, ao entretenimento e a milhares de outras pessoas durante praticamente todas as horas do dia.
Essa capacidade é extraordinária e exige aprendizagem. Precisamos aprender não apenas a usar a tecnologia, mas também a definir quanto espaço ela ocupará em nossa atenção.
Quando a experiência pessoal encontra a clínica
Meu interesse pela ansiedade também nasce de uma experiência pessoal.
Durante muitos anos, sintomas que hoje reconheço com mais clareza fizeram parte da minha história. A compreensão sobre eles chegou na vida adulta, por meio da análise, e influenciou o percurso que mais tarde me levou à formação em psicanálise e ao estudo da neurociência do comportamento humano.
Dessa experiência surgiram muitas das perguntas que depois atravessaram minha formação e minha prática clínica.
Uma delas continua presente no meu trabalho: quantas pessoas convivem por tanto tempo com um estado elevado de alerta que já não conseguem reconhecê-lo?
Muitas continuam trabalhando, estudando e cuidando da casa, da família e de outras pessoas. Mantêm suas responsabilidades, produzem, resolvem problemas e seguem a rotina.
Por dentro, porém, permanece a sensação de que alguma coisa precisa ser resolvida, de que algo pode acontecer ou de que uma informação importante está ficando para trás.
O que podemos fazer
A vida moderna dificilmente ficará menos conectada. Por isso, aprender a regular a exposição aos estímulos torna-se cada vez mais importante.
Criar períodos sem notificações, estabelecer horários para acompanhar notícias, reduzir a alternância constante entre tarefas e preservar momentos sem telas pode diminuir a quantidade de estímulos processados ao mesmo tempo.
Sono adequado, atividade física, vínculos sociais, lazer e pausas reais também ajudam na regulação do organismo.
Outra habilidade importante é aprender a conviver melhor com a incerteza. Não teremos controle sobre tudo o que acontecerá, por mais informação que esteja disponível. A tentativa permanente de prever, acompanhar e antecipar cada possibilidade pode alimentar a própria preocupação.
Também é preciso reconhecer quando a ansiedade deixou de ser uma resposta ocasional e começou a interferir na vida.
Preocupação persistente, dificuldade para relaxar, irritabilidade, alterações do sono, tensão constante, sintomas físicos recorrentes e prejuízos no trabalho, nos relacionamentos ou na rotina merecem atenção profissional.
A OMS destaca que existem tratamentos eficazes para os transtornos de ansiedade, embora apenas uma parcela das pessoas afetadas tenha acesso a eles.
Temos inúmeras ferramentas para permanecer informados, disponíveis e conectados. O desafio é estabelecer limites que permitam ao organismo desacelerar, mesmo quando o mundo ao redor continua em ritmo intenso.












