Autoria: Lídice Barros Oliveira Pereira Diretora de Secretaria na Justiça Federal do Rio de Janeiro Pós-graduanda em Neurociências e Pós-graduada em Direito do Consumidor
Introdução
Como empreendedoras, profissionais liberais e líderes, convivemos diariamente com pessoas que atravessam diferentes fases e desafios em suas vidas. Liderar, sob a perspectiva das neurociências, vai muito além de distribuir tarefas ou acompanhar indicadores de desempenho. Significa compreender que o cérebro humano é profundamente influenciado pelo ambiente, pelas emoções e pelas experiências vividas.
A 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada em 2025, entrevistou 21.641 brasileiras com 16 anos ou mais, em todos os estados e no Distrito Federal, entre maio e julho. O estudo, de natureza probabilística, representa a maior série histórica sobre o tema no país.
Os principais resultados mostram que 27% das mulheres já sofreram violência doméstica ou familiar praticada por um homem ao longo da vida, mantendo o mesmo patamar observado em 2021. Além disso, 34% relataram ter vivenciado, nos últimos doze meses, pelo menos uma das 19 situações de violência investigadas, incluindo agressões físicas, morais, psicológicas, patrimoniais, sexuais e digitais, conforme divulgado pelo Senado Federal.
Diante dessa realidade, a empatia deixa de ser apenas uma virtude para tornar-se uma competência estratégica, capaz de fortalecer a inteligência emocional coletiva, ampliar o senso de segurança psicológica e construir equipes mais saudáveis, engajadas e produtivas.
A Empatia Sob a Perspectiva das Neurociências
Sob a ótica da neurociência, a empatia não constitui um processo único. Ela envolve, pelo menos, duas formas principais de funcionamento cerebral: a empatia emocional (afetiva) e a empatia cognitiva (racional). Embora trabalhem em conjunto, elas dependem de circuitos neurais parcialmente distintos e produzem comportamentos diferentes.
A empatia cognitiva corresponde à capacidade de compreender o que a outra pessoa pensa, sente ou pretende, sem necessariamente compartilhar essa emoção, estando fundamentada na Teoria da Mente (Theory of Mind). Já a empatia emocional consiste na capacidade de compartilhar ou ressoar emocionalmente o estado afetivo de outra pessoa, como se experimentássemos parte daquela emoção. Ambas podem ser utilizadas pela líder de forma complementar.
O pesquisador Simon Baron-Cohen revolucionou os estudos sobre leitura da mente ao aplicar a Teoria da Mente em pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Em seus estudos, distinguiu de maneira didática a empatia cognitiva (compreender o que o outro pensa) da empatia afetiva (compartilhar o que o outro sente). Essa diferenciação tornou-se especialmente útil para compreender e aperfeiçoar a prática da liderança.
A Violência Psicológica Invisível no Ambiente de Trabalho
Entre as inúmeras realidades presentes em uma equipe, existe uma que ainda permanece cercada pelo silêncio: mulheres que desempenham suas funções profissionais com dedicação, mas que, ao retornarem para casa, enfrentam situações de assédio moral, violência psicológica ou violência doméstica. Muitas permanecem caladas por medo, vergonha, culpa ou, simplesmente, por não compreenderem plenamente o que estão vivendo.
O campo científico das neurociências demonstra que a exposição contínua à violência mantém o cérebro em estado permanente de alerta, ativando mecanismos de sobrevivência que comprometem a atenção, a memória, a capacidade de concentração, a tomada de decisões e a regulação emocional. Como consequência, essa colaboradora pode apresentar alterações em seu comportamento, queda de desempenho, dificuldades de relacionamento ou oscilações emocionais que, muitas vezes, são interpretadas, de forma equivocada, como desinteresse ou falta de comprometimento.
Toda violência deixa marcas: algumas visíveis, outras profundamente invisíveis. Por isso, líderes preparados não julgam precipitadamente comportamentos; procuram compreender os contextos. Um ambiente de trabalho psicologicamente seguro, acolhedor e respeitoso pode representar, para muitas mulheres, o único espaço de estabilidade emocional em meio ao caos vivido fora dele.
Liderar pessoas é, antes de tudo, compreender que cuidar da saúde emocional da equipe também é uma forma de promover resultados sustentáveis, fortalecer vínculos de confiança e transformar vidas.
Gaslighting: A Manipulação Psicológica Silenciosa
Algumas das feridas mais profundas são emocionais e atingem diretamente a forma como a pessoa percebe a si mesma e o mundo ao seu redor. Entre essas formas de abuso está o gaslighting, uma modalidade de manipulação psicológica que pode ocorrer em relacionamentos afetivos, familiares e até profissionais.
O termo gaslighting descreve um comportamento em que o agressor, de maneira repetitiva, distorce fatos, nega acontecimentos e invalida sentimentos com o objetivo, consciente ou não, de fazer a outra pessoa questionar sua própria memória, percepção e julgamento. Com o tempo, a vítima passa a perder a confiança em si mesma e a depender cada vez mais da versão apresentada pelo manipulador.
Expressões como “Você está exagerando”, “Isso nunca aconteceu”, “Você entendeu tudo errado” ou “Você é sensível demais”, quando utilizadas de forma recorrente para desqualificar a percepção da outra pessoa, podem representar sinais desse padrão de comportamento.
A ativação persistente dos circuitos relacionados ao estresse pode comprometer a capacidade de avaliar situações com clareza, favorecer sentimentos de culpa e insegurança e reduzir progressivamente a autoestima. Não é raro que a vítima passe a acreditar que realmente é responsável pelos conflitos ou que até mesmo sua percepção está equivocada.
É importante compreender que o gaslighting dificilmente ocorre de forma isolada. Em geral, ele integra um padrão de controle emocional caracterizado por humilhações, intimidações, chantagens afetivas, silêncio punitivo, desvalorização constante e tentativas de restringir a autonomia da parceira.
O Papel da Liderança Feminina
Para líderes, é fundamental reconhecer que colaboradoras podem estar enfrentando esse tipo de situação em casa, o que pode impactar diretamente sua concentração, confiança e desempenho no trabalho. Criar um ambiente seguro, acolhedor e livre de julgamentos, oferecer escuta ativa e respeitosa, além de orientar sobre os canais de apoio disponíveis, são atitudes que fortalecem a confiança e contribuem para o bem-estar da equipe.
Sensibilidade e empatia não substituem o papel de profissionais especializados, mas podem representar o primeiro passo para que essa pessoa se sinta vista, respeitada e encorajada a buscar ajuda.
Na liderança, a combinação entre empatia emocional e empatia cognitiva fortalece a segurança psicológica da equipe. A líder percebe sinais de sofrimento, compreende o contexto individual e toma decisões equilibradas, preservando tanto o bem-estar da colaboradora quanto os objetivos institucionais.
Essa é uma das competências mais valorizadas nas organizações modernas: acolher com sensibilidade e decidir com clareza.
Considerações Finais
Mais do que alcançar resultados organizacionais, a liderança consciente exerce um relevante papel social. Ao compreender os impactos da violência psicológica sobre o cérebro e o comportamento humano, líderes tornam-se capazes de construir ambientes mais seguros, fortalecer relações de confiança e favorecer o desenvolvimento integral de suas equipes.
E o melhor de tudo é ter o privilégio de exercer um papel social relevante como líder consciente, ajudando a construir uma sociedade mais saudável, humana e justa.
Referências
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Senado Federal. 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher – DataSenado (2025).
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Simon Baron-Cohen. Estudos sobre Teoria da Mente e Empatia.















