Autoestima, Fragmentação e a Servidão ao Ideal de Ego
O fenômeno da mulher empreendedora e multitarefa transcende a mera gestão de tempo. Sob a ótica psicanalítica, o constante malabarismo entre as esferas profissional, familiar e pessoal revela uma tensão estrutural profunda na constituição do Eu.
A empreendedora de hoje não só internaliza as exigências do Capitalismo de Performance — que elege a produtividade como valor moral — mas carrega o peso histórico da Dupla Jornada: o imperativo de excelência no espaço público (associado ao Simbolismo Paterno) e a excelência irrestrita no espaço privado (associado ao Simbolismo Materno).
O problema central reside no Investimento Narcísico e na forma como o valor do Eu passa a ser medido, paradoxalmente, pela sua capacidade de ser onipotente e onipresente. A falha, neste contexto, é duplamente punida: pela lei externa do mercado e pela lei interna de uma moral internalizada que exige perfeição incondicional.
O Ideal de Ego Hipertrofiado e a Tirania do Supereu
A autoestima, na metapsicologia freudiana, baseia-se na constante avaliação da distância entre o Eu Real (o que o sujeito é, com seus limites) e o Ideal de Ego (a imagem de perfeição que o sujeito aspira ser).
Para a mulher na posição multitarefa, esse Ideal de Ego é patologicamente hipertrofiado. A cultura vende o mito da “Supermulher”, a figura que alcança o sucesso profissional (o “triunfo fálico” no simbólico) sem nunca falhar na maternidade ou no cuidado. Historicamente e culturalmente, essa carga recai desproporcionalmente sobre as mulheres.
Cada escolha feita no cotidiano implica abrir mão de algo, e isso, frequentemente, gera a sensação de não ser suficiente. O sucesso não alivia: pelo contrário, amplia as expectativas. A sociedade ainda cobra que a mulher mantenha a casa impecável, eduque os filhos e esteja presente em todos os âmbitos, mesmo quando lidera projetos e equipes.
Essa instância inatingível é incessantemente cobrada pelo Supereu, o agente interno da moralidade e dos imperativos. O Supereu da empreendedora não é apenas rigoroso; ele se torna totalitário, pois absorve e potencializa as exigências do que chamamos de Imago Materno Arcaico — a pressão inconsciente de ser a mãe perfeita e autossuficiente.
O Supereu utiliza a multitarefa como uma ferramenta de vigilância e autopunição, reforçando a crença de que valor é sinônimo de produtividade incessante. Quando a mulher falha em qualquer dimensão desse Ideal (seja um projeto atrasado ou uma incapacidade de estar presente), essa falha é sentida como uma castração simbólica radical. A culpa gerada pelo Supereu é o mecanismo perverso que impede o descanso e impulsiona a mulher a uma performance compensatória ainda mais frenética, num ciclo neurótico de servidão à própria imagem idealizada.
Fragmentação do Narcisismo e o Colapso do Eu
A multitarefa não é só estresse; ela é, psiquicamente, um mecanismo de fragmentação do Eu.
A energia libidinal, que deveria sustentar um Eu coeso, é pulverizada em inúmeros objetos de atenção e demandas (o Eu-mãe, o Eu-CEO, o Eu-esposa, Eu-filha, Eu-mulher, etc), que muitas internalizam a ideia de que só serão plenamente realizadas se derem conta de tudo, o que as leva ao esgotamento emocional e à ansiedade, ao adoecimento psíquico e, consequentemente, físico.
O risco dessa dispersão é a vulnerabilidade narcísica estrutural. O Eu é percebido como um conjunto de objetos parciais, e o colapso de um desses objetos é sentido como a desintegração total do ser. A empreendedora injeta partes de sua identidade nas obras que cria. Se um projeto colapsa, a sensação é de aniquilamento total (= fracasso total), pois o limite entre o Eu e o Objeto (o projeto) se desfaz.
A troca constante entre essas tarefas exige um custo de reorientação cognitiva (o tempo e a energia necessários para “reengatar-se” em uma nova tarefa) constante, o que leva a um desgaste psíquico imensurável. Essa sobrecarga impõe um custo psíquico e neurológico severo, manifestado na falha cognitiva (lapsos de memória, dificuldade de concentração, erros constantes, baixa qualidade, fadiga de decisão, etc.) e na somatização.
O corpo se torna o palco do conflito. A falência da performance mental é rapidamente seguida pela tirania do Supereu (“Você não pode falhar nem mentalmente, nem fisicamente!”), reforçando o ciclo de urgência em compensar a imperfeição com mais esforço, mesmo diante do esgotamento (burnout).
E essa incapacidade de fazer o luto pela onipotência é um caminho direto para a depressão, chegando à melancolização, onde a crítica do Supereu é dirigida ao próprio Eu de forma cruel e radical, paralisando a ação e o desejo.
O Reencontro com a Autoestima: A Terapia da Incompletude
A superação psicanalítica para a empreendedora multitarefa reside na aceitação da castração simbólica — a verdade estrutural de que o sujeito é um ser de limites, clivagens e falhas. A perfeição é uma ilusão neurótica destinada ao fracasso e à exaustão.
O caminho para uma autoestima saudável exige a Morte Simbólica dessa “Supermulher” e o surgimento consciente da “Verdadeira Mulher” que existe em cada uma de nós. Este é um ato de coragem que subverte a tirania superegoica e permite a emergência de um Eu mais integrado, que se constrói a partir da diferença, e não da totalidade.
Este processo passa por três pilares essenciais:
- 1. Diferenciação entre Identidade e Performance: Desvincular o valor intrínseco do Eu (seu ser, sua identidade) da eficácia e dos resultados (seu fazer). O Eu deve ser validado por sua existência e seu desejo, e não apenas por suas realizações. É a reconquista do narcisismo primário.
- 2. Imposição de Limites (A Lei do Eu): O ato de dizer “não”, delegar ou descansar é um movimento de fortalecimento do Eu perante o Supereu. É o Eu que, finalmente, impõe sua própria lei (a função paterna interna), liberando a gigantesca energia psíquica antes usada para a vigilância e a autopunição.
- 3. Ressignificação e Ética do Desejo: Retomar o contato com o Desejo original do empreendedorismo — o prazer de construir e criar (Sublimação) — em vez de apenas reagir às Demandas do mercado ou da família. A libido deve ser investida na obra de forma criativa e autêntica, e não como uma defesa contra a angústia.
Conclusão: Rumo à Solidez Narcísica
A solidez narcísica é alcançada quando o Eu se permite a Incompletude. Este movimento não a enfraquece; pelo contrário, constrói uma autoestima resiliente, autêntica e verdadeiramente autônoma, pois não é mais dependente da confirmação externa.
Seu sucesso prosperará não em função do seu sacrifício, mas pela força de uma identidade que se permite ser Suficiente em vez de perfeita. A maior riqueza e a maior força simbólica residem na integridade do Eu, um Eu que reconhece e sustenta seus próprios limites humanos.
No palco das mil tarefas, mulheres empreendedoras enfrentam desafios diários, mas também abrem caminhos para as novas gerações e infinitas possibilidades de sucesso. Aliviar a culpa e valorizar o equilíbrio é essencial para trilhar uma jornada mais leve, onde o sucesso seja motivo de orgulho, não de cobrança.
Convite à Reflexão Profissional
Para você, qual é o custo real que o mito da “Supermulher” tem cobrado do seu Eu Real?
O trabalho de análise é fundamental para desmistificar esse ideal e iniciar o luto pela onipotência. Permita-se o limite. Permita-se ser suficiente.
Compartilhe sua reflexão e vamos juntas desmantelar essa tirania superegoica.
Maria Eugênia Damaceno
Psicóloga, Psicanalista e Terapeuta Holística.
Atua com foco em saúde mental para adolescentes, adultos e idosos, que buscam mais equilíbrio emocional, autoconfiança e sentido na vida.
Acredita que cuidar da mente é essencial para empreender, maternar, se reinventar ou simplesmente viver com mais leveza e qualidade de vida. Cuidar da saúde mental é também um ato de responsabilidade e de amor para com quem espera por nós em casa.
No seu trabalho, une a escuta profunda da psicanálise com práticas integrativas como meditação, aromaterapia e autoconhecimento.
Sempre disposta a trocas, parcerias e conexões com propósito. Se você acredita que saúde mental é prioridade, venha conversar!

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